Igreja de Nossa Senhora do Rosário
| Nome | Igreja de Nossa Senhora do Rosário |
|---|---|
| Imagem |
Vista frontal e lateral da igreja |
| Estilo arquitetônico | Colonial com interior barroco-rococó |
| Cidade | Lavras, Minas Gerais |
| Órgão de proteção | Tombamento nacional pelo IPHAN, Livro do Tombo das Belas Artes |
| Padre atual | Túlio Marcos Ribeiro Corrêa, SCJ |
| Tombamento municipal | 2002 |
| Tombamento nacional | 1948 |
| Inauguração | Museu Sacro de Lavras (1990) |
| País | Brasil |
| Endereço | Praça Dr. Augusto Silva, s.n. |
| Website | www.paroquiasantanadelavras.com.br |
| Restauros | 1875; 1902; 1928; 1949; 1970; 1982; 1997; 2008; 2019 |
| Consagração | 1754 (como Igreja de Sant'Ana), 1917 (como Igreja de Nossa Senhora do Rosário) |
| Diocese | Diocese de São João del-Rei |
| Religião | Catolicismo Romano |
| Construção | Início: 1751 Fim: 1854 |
| Tipo | Templo católico |
| Arquiteto | Luís Pinheiro de Souza (?) |
| Nomes anteriores | Igreja de Sant'Ana (1754-1760) Igreja Matriz de Sant'Ana (1760-1917) |
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário é a construção mais antiga da cidade de Lavras, Minas Gerais.
História
O nome original do templo era capela de Sant'Ana, quando de sua edificação, entre 1751 e 1754, nas terras do capitão Luiz Gomes de Morais Salgado. A capela seria elevada à condição de igreja Matriz em 1760, após a transferência da sede paroquial que até então ficava em Carrancas. Em 1765 era terminada a construção da nave-mor da Matriz.[1]
Em 1810 foi construída uma igreja em homenagem à Nossa Senhora do Rosário que ficava onde hoje é o alto da Praça Leonardo Venerando. Esta edificação foi demolida em 1904, quando se iniciava a construção da nova Matriz de Sant'Ana. Em 1917 esta foi inaugurada, havendo assim a troca de nomes das igrejas: a velha Matriz passa a ser a igreja do Rosário.
Ainda no século XIX, registra-se que na época da criação do município de Lavras (1831), o padre Francisco d'Assis Braziel lecionava aulas de Latim, Francês, Geografia, Desenho, Aritmética e Música num dos cômodos da velha Matriz de Sant'Ana.[2] Além disso, havia um cemitério nos arredores da igreja, utilizado até 1853, quando foi criado o cemitério de São Miguel no então extremo sul da vila de Lavras. Em 1875, a igreja recebeu recursos advindos da loteria para sua restauração.[3]
No século XX, em 1928 foram instalados dois novos sinos da igreja, fundidos em Divinópolis e adquiridos pelo padre Fernando Baumhoff, SCJ, primeiro pároco da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus a servir em Lavras.[1] Segundo o prof. José Luiz de Mesquita, os sinos foram batizados como "Francelino" e "Jerônimo II".[4]
Patrimônio nacional
A partir dos anos 1930, a igreja foi aos poucos perdendo destaque e ficando abandonada. Nesta época, aparentemente o templo só era aberto na Semana Santa. Em 1940, a construção colonial esteve prestes a ser demolida e ver seu terreno dar lugar a um clube social. O professor José Luiz de Mesquita (1887-1967), líder comunitário lavrense e um dos fundadores da Sociedade de São Vicente de Paulo na cidade, escreve para Rodrigo Melo Franco, diretor do IPHAN, sobre a intenção manifesta pelos empresários. Melo Franco, assim, comunica o bispo de Campanha, Dom Inocêncio Engelke, OFM, que qualquer tratativa de venda da igreja deveria ser suspensa até avaliação do órgão federal.[5] A operação também foi denunciada na imprensa belo-horizontina pelo cônego Francisco Maria Bueno de Sequeira (1895-1979), sacerdote descendente dos fundadores de Lavras e membro da Academia Mineira de Letras.[6]
Em 1944, desabamentos espontâneos de algumas paredes alarmaram a população, que temia pelo desmoronamento da igreja. Seguiu-se grande debate público a respeito da conveniência da preservação do templo bicentenário, campanha esta estimulada por José Luiz de Mesquita, Sílvio do Amaral Moreira e outras personalidades locais. Este esforço comunitário permitiu que a igreja fosse tombada como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1948[7] e restaurada com recursos federais em 1949.[5][8]
A igreja do Rosário novamente seria ameaçada pela falta de cuidados na segunda metade do século XX, ficando de fato fechada entre 1964 e 1982. Houve inclusive dois sérios desabamentos em 1965 e 1969, que exigiram novas reformas.[5] Em 1982, o prefeito Maurício Pádua Souza separou dotação pública municipal de três milhões de cruzeiros para contratar a firma Artes Litúrgicas Santa Rita, possibilitando a reabertura da igreja, após quase vinte anos. A solenidade se deu em 8 de maio de 1982.[1]
Em 13 de outubro de 1990, a igreja passou a abrigar o Museu Sacro de Lavras, ação de mútua colaboração entre a paróquia de Sant'Ana, a prefeitura municipal de Lavras e o Museu Bi Moreira.[9]
Século XXI
No início do século XXI, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário foi declarada patrimônio cultural municipal, sendo inscrita no Livro do Tombo Histórico em 2002.[10] Após um intervalo de vinte anos, em 2008, voltariam a ser celebrados os ofícios religiosos no local,[11] quando a igreja passou por nova restauração nos retábulos e também na pintura do forro.[12] Em 2019, o entorno do templo foi reformado, quando novas pedras foram colocadas no adro e Praça João Oscar de Pádua.[13]
Durante as comemorações do tricentenário do povoamento de Lavras, em 21 de julho de 2020, o padre Túlio Corrêa, SCJ, pároco de Sant'Ana de Lavras, abençoou a "Cruz do Tricentenário", feita pelo artesão Alexandre Reis. Assim, após 38 anos, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário voltou a ter uma cruz sobre o telhado.[14] Em 2023, após uma grande campanha comunitária, foram adquiridos 48 novos bancos de madeira para a igreja.[15] Ainda em 2023, o bispo de São João del-Rei, dom José Eudes Campos do Nascimento, celebrou missa e cerimônia de dedicação e bênção dos novos altar e ambão do templo.[16]
Acervo de arte sacra
Moacyr Villela sugere que os entalhes em madeira dos altares da igreja foram feitos pelo escultor português José Maria da Silva, em 1784,[17] embora esta teoria tem sido contestada por outros especialistas, que apontam para o círculo de entalhadores setecentistas da comarca do Rio das Mortes, como Luiz Pinheiro de Souza e Francisco de Lima Cerqueira.[18] As pinturas no forro da capela-mor datam de cerca de 1805, obra atribuída ao pintor mulato são-joanense Joaquim José da Natividade. Os retábulos da Igreja aguardam restauração.[19]
Das imagens, destacam-se as belas representações em madeira policromada em tamanho natural, ligadas às tradições da Semana Santa: Senhor do Triunfo, Senhor dos Passos, Nossa Senhora das Dores, Bom Jesus da Cana Verde e Senhor Morto. Além destas, existem imagens dos séculos XVIII e XIX de Santo Antônio, São Francisco de Assis, Nossa Senhora do Carmo, e de Nossa Senhora do Rosário. As imagens de São Benedito, São Miguel e Santa Ifigênia estão desaparecidas.[4]
Faz parte do acervo original da igreja uma imagem de Sant'Ana Mestra, que esteve no trono do retábulo-mor do templo até 1917, tombada como patrimônio cultural municipal em 2020.[20][21]
Também em 2020 foi devolvida a tela "Verônica", que retornou à comunidade lavrense após 62 anos,[22][23] após ser resgatada por William Daghlian.[24][25][26] A pintura é também atribuída a Joaquim José da Natividade e esteve no acervo do Museu de Arte de São Paulo por 12 anos.[27] Em 2017 foi restaurada por Thaís Cristina Coelho Carvalho Caixeta,[28][29] com recursos do Fundo Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de Lavras,[30][31] intermédio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional[32][33] e Ministério Público do Estado de Minas Gerais.[34][35] Em 17 de agosto de 2021, durante o IV Fórum do Patrimônio Cultural de Lavras, a tela foi exposta na Igreja do Rosário pela primeira vez, desde a década de 1950.[36]
Galeria
Referências
- NÉMETH-TORRES, Geovani. Os 250 Anos da Paróquia de Sant’Ana. Lavras: Geovani Németh-Torres, 2010. ISBN 978-85-911368-0-3.
- VILELA, Marcio Salviano. A Formação Histórica dos Campos de Sant'Ana das Lavras do Funil. Lavras: Indi, 2007.
- NÉMETH-TORRES, Geovani. História Geral de Lavras, Volume I. Lavras: Geovani Németh-Torres, 2018. ISBN 978-85-911368-5-8.
- NÉMETH-TORRES, Geovani. "Patrimônios desaparecidos". Acrópole, n. 51, 10 fev. 2019.
- NÉMETH-TORRES, Geovani. "História da preservação do patrimônio cultural de Lavras (1940-1984)". Revista do Patrimônio Cultural de Lavras, v. 1, n. 1, 2020.
- O Diário. Belo Horizonte, 9 jan. 1944.
- Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Livro do Tombo das Belas Artes, fls. 67, Processo n.º 368-T, Inscrição n.º 316, 1948.
- NÉMETH-TORRES, Geovani. História Geral de Lavras, Volume II. Lavras: Geovani Németh-Torres, 2023. ISBN 978-65-00-60149-7.
- NÉMETH-TORRES, Geovani. "Ligeiro comentário sobre os museus e arquivos lavrenses". Revista do Patrimônio Cultural de Lavras, v. 1, n. 1, 2020.
- Decreto municipal n. 3.936, de 1.º de março de 2002.
- NÉMETH-TORRES, Geovani. "Igreja do Rosário". Acrópole, n. 41, 1.º nov. 2010.
- "Igreja do Rosário passará por reformas". O Lavrense, 6 mar. 2008.
- "Lavras: prefeitura realiza obra de revitalização e preservação da Igreja do Rosário". Mirante da Bocaina, 27 nov. 2019.
- LIBECK, Renato Torres. "Bênção à Cruz do Tricentenário". Museu da Imagem e do Som de Lavras, 27 jul. 2020 (YouTube).
- "Igreja de Nossa Senhora do Rosário ganha novos bancos". Lavras 24 Horas, 25 jan. 2023.
- SILVEIRA, Lucas. "Bispo preside missa e dedicação do novo altar da Igreja do Rosário em Lavras". Diocese de São João del-Rei, 9 out. 2023.
- VILLELA, Moacyr. "Jose Maria da Silva, um mestre entalhador de Braga na Comarca do Rio das Mortes". Projeto Compartilhar.
- ANDRADE, Letícia Martins. "Considerações sobre as obras de talha e pintura na Igreja do Rosário...". Revista do Patrimônio Cultural de Lavras, v. 1, n. 1, 2020.
- "Altares da Igreja de Nossa Senhora do Rosário em Lavras deverão ser restaurados". Jornal Correio do Sul, 12 jul. 2018.
- Decreto municipal n. 15.363, de 6 de abril de 2020.
- NÉMETH-TORRES, Geovani. "Imagem de Sant'Ana mestra da antiga matriz de Lavras". Acrópole, n. 58, 15 abr. 2020.
- NÉMETH-TORRES, Geovani. "Verônica & a imagem de Sant'Ana". 20 nov. 2020 (YouTube).
- CICARELLI, Eduardo. "Obra do século XVIII que foi restaurada está de volta a Lavras". Jornal de Lavras, 20 nov. 2020.
- CICARELLI, Eduardo. "Masp vai devolver para Minas Gerais quadro sacro levado de Lavras". Jornal de Lavras, 30 abr. 2015.
- WERNECK, Gustavo. "Outra relíquia volta a Minas". Estado de Minas, 1.º maio 2015.
- WERNECK, Gustavo. "Obra do século 18 que estava em São Paulo vai para museu em Minas". Estado de Minas, 1.º maio 2015.
- WERNECK, Gustavo. "Obra de arte da igreja de Lavras retorna a Minas Gerais". Estado de Minas, 26 abr. 2016.
- MOURA, Fernanda Carolina Silva; CAIXETA, Thaís Cristina Coelho Carvalho. "Os desafios da restauração da pintura de cavalete intitulada “Verônica”...". Revista do Patrimônio Cultural de Lavras, v. 1, n. 1, 2020.
- CAIXETA, Thaís Cristina Coelho Carvalho. "Os desafios da restauração da pintura intitulada “Verônica”...". Museu da Imagem e do Som de Lavras, 18 jul. 2020 (YouTube).
- WERNECK, Gustavo. "Quadro do século 18 é apresentado após cinco meses de restauração". Estado de Minas, 19 out. 2017.
- "Obra de arte é devolvida para igreja de Lavras". Diocese de São João del-Rei, 19 out. 2017.
- PEREIRA, Fernanda. "Obra de arte é devolvida para a cidade de Lavras (MG)". IPHAN, 17 out. 2017.
- BRASIL, André. "Verônica retorna a Lavras (MG): tela é restaurada e devolvida à Igreja de N. S. do Rosário". IPHAN, 23 nov. 2020.
- "Após ser recuperada pelo MPMG, pintura “Verônica” retorna ao acervo da Igreja Nossa Senhora do Rosário". Ministério Público de Minas Gerais, 19 nov. 2020.
- "Patrimônio perdido". Justiça em Questão, 25 jan. 2021 (YouTube).
- BISSOLI, Marco Aurélio. "IV Fórum do Patrimônio Cultural: Tela Verônica é mostrada pela primeira vez na Igreja do Rosário". Lavras 24 Horas, 18 ago. 2021.
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