segunda-feira, 27 de junho de 2016

História do Altar-mor da Igreja Matriz de Sant'Ana de Lavras





O dinâmico e empreendedor padre Fernando Baumhoff serviria como pároco de Sant'Ana até 1929, mas não sairia antes de concluir as obras da nova Matriz. Para isso, faltava precisamente o altar-mor, peça do qual se projetava dotar o templo desde 1917. Segue-se o testemunho ocular de D.ª Silvia Maia Jordão (Vica Maria), dado ao Museu Bi Moreira em 1992: 

(...) Ao mexer em um móvel da Casa Paroquial, Padre Fernando encontrou a planta de um altar. Resolveu então procurar a diretoria da Congregação “Filhas de Maria” composta por Silvia Maia (a grande pianista Vica Maia, que tocava no Teatro Municipal) – presidente; Noêmia Carvalho – secretária e Marta Bini – tesoureira – e pediu a elas que organizassem festas beneficentes, cuja renda seria destinada à confecção do altar.

Foi então organizada uma grande quermesse na Praça Dr. Augusto Silva, com vários tipos de barracas, além de um espetacular baile na residência do Dr. Morávia Júnior, engenheiro da Estrada Ferroviária Oeste de Minas (EFOM). A residência do Dr. Morávia é onde funciona a Secretaria Municipal de Educação¹. Com estas promoções, conseguiu-se levantar a quantia de onze contos de réis, para dar início à obra².

Partindo para uma visita à sua Terra Natal, a Alemanha, Padre Fernando levou o dinheiro arrecadado e lá contou aos familiares e amigos sua intenção. Foi sugerido, então, que ele procurasse um artista do Tirol³, o único em condições de executar o projeto.

Alguns meses depois, Padre Fernando recebe uma notificação da alfândega do Rio de Janeiro pedindo para retirar os volumes e pagar uma taxa de setenta contos de réis.

Como conseguir, de repente, tão numerosa quantia? Foi então que Vica Maria teve uma brilhante idéia: que procurassem seu tio, o Cel. José Moura do Amaral, naquela época um político de prestígio em nossa cidade. Alguns dias depois, Padre Fernando acompanhado pelo Cel. José Moura, partiram para o Rio de Janeiro, onde, em companhia do conterrâneo e também político influente Dr. Francisco Salles, foram até a alfândega. Um alto funcionário daquele departamento sugeriu à comitiva que levasse um professor da Escola de Belas-Artes para dar um parecer. Se comprovado ser o altar um objeto de arte, o frete seria bem reduzido.

A cada pacote que o professor abria, declarava, com espanto e entusiasmo: “É pura obra de arte!”. Foi então liberada a retirada dos volumes, sem qualquer ônus para a paróquia.

Graças à interferência do Dr. Janot Pacheco, então diretor da Oeste de Minas e que se encontrava hospedado na casa do Dr. Jacinto Scorza, de cuja esposa era parente, o transporte do Rio de Janeiro a Lavras foi feito, também, gratuitamente. Pouco tempo depois*, Padre Fernando recebeu uma carta do Tirol, onde o artista responsável pelo rico e valioso altar dizia querer contribuir para o término da Matriz, por isto, os onze contos de réis dados como entrada já pagava seu trabalho.
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¹ Em 2010 é a Secretaria Municipal de Promoção da Cidadania.
² De acordo com anúncio publicado na Tribuna do Povo de 22 de julho de 1928, com onze contos de réis se podia comprar um luxuoso Landau Imperial da Chevrolet, o automóvel mais caro então anunciado.
³ Era Ferdinando Stuflesser da cidade de Ortisei, Itália. Curiosidade: este escultor também construiu os altares da igreja de Nossa Senhora da Glória, em Juiz de Fora, que são similares ao da Matriz, porém um pouco menores.
* Diz a Tribuna do Povo de 12 de agosto de 1928 que o vigário regressara naquela semana.


Fonte: NÉMETH-TORRES, Geovani. (2010). Os 250 Anos da Paróquia de Sant'Ana de Lavras.

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