domingo, 20 de dezembro de 2015

Entrevista sobre o Acervo Cultural Lavrense

Entrevista concedida ao jornalista e advogado Aureliano Borges, dezembro de 2015.

1) Por que Lavras pode ser considerada: Cidade dos Ipês, das escolas, da política e da religiosidade?

O epíteto de Lavras, "Cidade dos Ipês e das Escolas" foi criado a partir das palavras do jornalista Jorge Duarte em 1941. O próprio Duarte, um dos primeiros alunos do Grupo Escolar de Firmino Costa foi um dos beneficiados pelo impulso educacional observado na cidade na virada do século, quando vários importantes educandários foram criados.

2) Qual a influência desses componentes na formação cultural de Lavras?

As novas escolas - o Instituto Evangélico (fundado em 1892 por Samuel Rhea Gammon), o Colégio Nossa Senhora de Lourdes (fundado em 1900 por freiras da Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade), o Grupo Escolar de Lavras (fundado em 1907 pelo professor Firmino Costa) e a Escola Agrícola de Lavras (fundada em 1908) - sem dúvida representaram uma elevação no nível de instrução formal dos lavrenses ao longo do Século XX. Não por coincidência, a época mais rica das atividades culturais em Lavras ocorreu nas décadas de 1940 e 1950, e as pessoas envolvidas nessas atividades eram justamente as crianças e jovens que, décadas antes, foram tão influenciadas em seu período formativo por aquela "revolução educacional" na cidade.

3) A influência dos americanos que fundaram o Gammon e a ESAL podem ser sentidas até hoje na nossa cultura?

Além das instituições educacionais fundadas que fundaram em Lavras, a influência americana é observada nas igrejas protestantes - notavelmente os presbiterianos e os mórmons -, e também nos clubes sociais, como o Rotary Club.

4) Qual o diferencial da participação dos americanos na nossa cultura?

Apesar da presença da cultura americana ainda ser observada em Lavras, esta difere das demais ondas de imigrantes - italianos, portugueses, libaneses, etc. - pelo fato dos americanos não virem como povoadores, mas sim como missionários religiosos. Há tempos tanto a Igreja Presbiteriana quando o Instituto Gammon já são administrados por brasileiros, e os missionários americanos ou seus descendentes fazem apenas visitas festivas esporádicas as suas realizações.

5) Como se avalia e se resume o acervo cultural de Lavras?

Desde a implantação da República, a mentalidade modernista sempre esteve presente em Lavras, o que, por sua vez, enfraquece a conservação e preservação de boa parte de nosso patrimônio cultural. Talvez a maior vítima desta mentalidade seja o conjunto arquitetônico no "centro histórico" da cidade: efetivamente existem apenas poucas construções centenárias em Lavras, o que é uma pena, principalmente quando se vê em fotos antigas a beleza dos prédios e casas da região central.

6) Qual a importância desse acervo para o crescimento da nossa cultura e também para a formação dos jovens que serão os adultos de amanhã?

Ainda que a cultura seja um elemento mutável ao longo do tempo, a falta de preservação cultural atinge diretamente o senso de identidade na formação educativa dos jovens. Uma sociedade sem identidade é uma sociedade decadente, mais próxima da barbárie que da civilização.

7) Na prática, quais os legados culturais dos principais componentes histórico-culturais de Lavras: educação, política e religiosidade?

Lavras é uma das mais antigas povoações de Minas Gerais, ainda que não tenha se despontado como centro minerador como outras cidades oitocentistas famosas. Dessa época, o principal legado é a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, até 1917 chamada Matriz de Sant'Ana. Lavras, em verdade, ganhou relevância a partir de 1880: devido a sua posição geográfica estratégica, desenvolveram-se rotas fluviais e ferroviárias que promoveram rápido crescimento econômico e populacional. Neste período áureo, que se prolonga até o final da década de 1910, seis escolas foram criadas (incluindo uma de nível superior); três templos religiosos (a Primeira Igreja Presbiteriana, de 1899, a nova Matriz de Sant'Ana, de 1917, e o Centro Espírita de Lavras, de 1920); além disso, no plano urbanístico, destaca-se o Jardim Municipal, inaugurado em 1908 e que hoje é chamado Praça Dr. Augusto Silva. Na política, o maior destaque é a presença do Dr. Francisco Salles, uma das figuras mais importantes da República Velha, ocupando vários cargos públicos relevantes, como a presidência do Estado de Minas Gerais entre 1902 e 1906.

8) Fale resumidamente sobre os principais expoentes da nossa cultura ligados à educação, política e religião.

9) O acervo cultural de Lavras é bem utilizado e está acessível a toda a população ou é apenas um mito descoberto e utilizado por poucos curiosos?

Não creio que o acervo cultural de Lavras esteja plenamente acessível à população. Na atualidade, talvez esteja na Universidade Federal de Lavras o maior potencial cultural e artístico da cidade, porém sua localização geográfica ainda tende a restringir suas atividades principalmente à comunidade acadêmica. Também a UFLA possui uma das jóias culturais de Lavras, o Museu Bi Moreira, mas que se encontra fechado já há quatro anos, sendo aberto ocasionalmente para exposições temporárias. Das entidades culturais e artísticas, destaco a Academia Lavrense de Letras, a Associação Lavrense dos Artesãos e Arte Culinária, as bandas Euterpe Operária e a do 8.º Batalhão da Polícia Militar, e o coral das Meninas Cantoras de Lavras. Quanto ao poder público, a Secretaria Municipal de Cultura costuma fazer alguma coisa de vez em quando, embora a maior parte de suas ações tenda a se perder a cada mudança de governo.

10) Como facilitar o acesso de todos ao grande acervo cultural do município?

Falta-nos um espaço físico que concentre a atividade cultural lavrense. Quer dizer, até temos a Casa da Cultura cujas salas são apropriadas para exposições, mas falta um espaço mais amplo como o antigo Teatro Municipal, demolido em 1962. Sem este, a praça principal é utilizada como substituto, porém claramente não é um espaço ideal - além de estar sujeita às intempéries, a aglomeração e trânsito de pessoas invariavelmente suja e destrói o jardim municipal.

11) A ausência dos americanos na nossa educação teria dado outro rumo a nossa formação cultural?

É um exercício interessante imaginar como seria a história se algum fato não acontecesse. Ainda que a influência e o legado dos americanos pudessem ser substituídos por outros grupos ou ações na hipótese de sua ausência, é difícil crer que os resultados seriam tão positivos. Aqueles missionários americanos movidos pelos ideais cristãos tinham uma visão de longo alcance, algo raro na tradição republicana brasileira. Sem os americanos, Lavras provavelmente seria hoje uma cidade menor e menos rica.

12) Solicito mensagem sobre a importância da minha proposta de projeto de mestrado sobre o acervo cultural de Lavras.

Estudos como o que se propõe a fazer, além de serem altamente prazerosos de se trabalhar para os entusiastas da área, são de grande importância para nossa sociedade, à medida que convida a refletir sobre sua própria essência. A cultura é a alma de uma sociedade; conhecê-la é saber quem somos, de onde viemos, e é também se conscientizar de nossa responsabilidade histórica em preservar um bom legado às gerações futuras.

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