quarta-feira, 12 de agosto de 2015

História de Lavras

Geovani Németh-Torres, Julho de 2011 (atualizado em Janeiro de 2016) 

 * Publicado na Wikipédia.

I – Início do povoamento 

Francisco Bueno da Fonseca (c. 1670-1752), líder de uma revolta contra um desembargador português em São Paulo em 1712 [1], veio, junto de seus filhos e outros sertanistas, a se estabelecer na região dos rio Capivari e rio Grande abaixo pelos anos de 1720 [2] ou 1721 [3]. Estes primeiros habitantes eram paulistas da vila de Santana do Parnaíba, e poucos anos depois de sua chegada, fundariam o arraial dos Campos de Sant’Ana das Lavras do Funil, em 1729 [4]. Nesta região, a família de Bueno da Fonseca estava empenhada na busca do ouro e também na abertura de novos caminhos até às Minas dos Goiases. Em 1737 os exploradores receberiam do governador Martinho de Mendonça uma carta de sesmaria confirmando a ocupação da terra, que se despontava na agricultura e pecuária. 

Em 18 de junho de 1759, Bartolomeu Bueno do Prado, neto do famoso Anhanguera e genro de Francisco Bueno da Fonseca, partiu do povoado à frente de sua tropa de quatrocentos homens, convocados de toda a capitania, para desbaratar a confederação quilombola do Campo Grande. A influência dos capitães-mores da família Bueno da Fonseca contribuiu para o rápido desenvolvimento do povoado: em 1760 este já possuía mil habitantes, o dobro de Carrancas, o que determinou a transferência da sede paroquial para a localidade mais populosa [5]. Em 1813 o arraial fora elevado à categoria de freguesia, quando do desmembramento de Carrancas. Possuía então 6 capelas curadas e 10.612 almas. 

II – Século XIX 

Já na época do Império, a freguesia obteve sua emancipação política e administrativa passando à condição de vila, em 1831, e cidade, em 1868, quando houve alteração na toponímica municipal de “Lavras do Funil” para “Lavras” [6]. Em relatório apresentado à Câmara informou o fiscal Manuel Custódio Neto que em 1832, ao instalar-se a vila, esta era constituída de 245 prédios e não havia calçamento em nenhuma de suas ruas. De edifícios públicos apenas existiam nesse tempo a igreja matriz, a capela do Rosário e a das Mercês. Possuía Lavras três escolas particulares de primeiras letras, com um total de 62 alunos [4]. Segundo o recenseamento de 1834, o município de Lavras possuía 11.322 habitantes [7]. 

Um dos acontecimentos mais marcantes deste período foi a participação de Lavras na Revolução Liberal de 1842. Por pouco mais de um mês, entre 14 de junho e 22 de julho daquele ano, liberais e conservadores mantiveram seus respectivos quartéis no largo da Matriz de Sant’Ana, atual Praça Dr. Augusto Silva. Os liberais derrotados se refugiaram ou foram presos, sendo posteriormente anistiados pelo governo imperial [7]. 

III – Época de Ouro 

O final do Século XIX e início do Século XX foi um momento de rápido desenvolvimento em Lavras, a começar pelas novas ligações fluviais e ferroviárias criadas. Em 18 de dezembro de 1880 foi inaugurada a navegação fluvial de 208 km entre os portos de Ribeirão Vermelho (município de Lavras) e de Capetinga (município de Piumhi), feita pelo barco a vapor “Dr. Jorge”. Em 14 de abril de 1888 a Estrada de Ferro Oeste de Minas era inaugurada a primeira estação em Ribeirão Vermelho, e em 1.º de abril de 1895 inaugurava-se a estação na cidade de Lavras. Mais tarde, em 1911, seria criado uma linha de bondes, sendo Lavras uma das poucas cidades do interior do Brasil a possuir esse sistema de transporte [8]. 

Após a Proclamação da República, Lavras se consolidou como um dos principais polos regionais de Minas Gerais, sendo o berço de Francisco Sales, importante político da República Velha. Nesta época, vários educandários foram criados, como o Instituto Evangélico (fundado em 1892 por Samuel Rhea Gammon), o Colégio Nossa Senhora de Lourdes (fundado em 1900 por freiras da Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade), o Grupo Escolar de Lavras (fundado em 1907 pelo professor Firmino Costa) e a Escola Agrícola de Lavras (fundada em 1908). Foi por causa da qualidade de sua educação que Lavras tornou-se conhecida como “terra dos ipês e das escolas”, lema criado pelo jornalista Jorge Duarte [9]. 

IV – Mudanças sociais e políticas 

A demografia local também foi modificada com a chegada de muitos imigrantes, que representavam 1,9% da população de acordo com o Censo Demográfico de 1920: havia no município um total de 806 estrangeiros, dos quais 380 eram italianos, 189 portugueses, 166 libaneses, 28 espanhóis, 20 americanos, 12 austríacos, 5 franceses, 2 russos, 1 uruguaio e 3 de nacionalidade indeterminada [10]. 

A década de 1920 representou uma desaceleração no progresso municipal, parte causada pela intensa disputa política promovida por duas correntes distintas: o Partido Republicano Mineiro, sob a nova direção do médico italiano Paulo Menicucci, era favorável à candidatura de Artur Bernardes à Presidência da República e Raul Soares à Presidência de Minas Gerais; e os dissidentes, liderados pelo coronel Pedro Sales, apoiavam as candidaturas de oposição respectivas de Nilo Peçanha e Francisco Sales. Essa disputa ficou conhecida como entre “Rolinhas e Gaviões”: Rolinhas em razão dos tiques psicastênicos afeminados atribuídos a Bernardes, e Gaviões por associar-se à esperteza, ao espírito sagaz, e naturalmente, por ser um dos predadores daquela pequena pomba [7]. Tal embate local perdurou até a década seguinte, quando foi eclipsado pelo novo ordenamento político nacional – o Estado Novo. 

Foi em meados do Século XX que o município de Lavras constituiu seus atuais limites geográficos. Em sua divisão administrativa referente ao ano de 1933, o município era formado por 8 distritos: Lavras, Carrancas, Ijaci (ex-Conceição do Rio Grande), Ingaí, Itumirim (ex-Rosário), Itutinga (ex-Santo Antônio da Ponte Nova), Luminárias (ex-Nossa Senhora do Carmo das Luminárias) e Ribeirão Vermelho. O município passou por separações político-administrativos em 1938, 1943, 1948 e 1962, quando seus antigos distritos se tornaram municípios vizinhos recém-criados, sendo atualmente composto por distrito único, a aglomeração urbana da sede [11]. 

V – Progresso e estagnação 

No período populista durante a Quarta República, o desenvolvimento de Lavras era sinalizado pelas novas ligações com os grandes centros: o primeiro caso foi a inauguração da linha de transportes aéreos, existente entre 1947 e 1960 [12] [13]; o segundo foi a abertura ao tráfego rodoviário da variante Lavras-Fernão Dias, em 1962. Outro aspecto de progresso foi a inauguração da Usina Hidrelétrica de Itutinga, em 1955, cujo aumento da produção de energia elétrica estimulou o crescimento industrial na cidade, através da ampliação das fábricas já existentes e instalação de novos empreendimentos. 

Lavras, nos anos 1950, passava por um de seus momentos de maior riqueza cultural, artística e esportiva, graças a associações cívicas como a Sociedade dos Amigos de Lavras (SAL) e a Sociedade Lavrense de Cultura Artística (SOLCA). A crônica da época registra diversas iniciativas como bailes, concursos, exposições, eventos educacionais, espetáculos teatrais, recitais de música e poesia, amistosos e torneios futebolísticos, além da formação de uma biblioteca pública e um museu municipal [7]. 

No início dos anos 1960, enquanto o país vivia um período de graves crises institucionais, Lavras sofria uma série de atentados feitos por um piromaníaco, na qual vários casarões históricos foram consumidos pelas chamas. Neste contexto, em 1962 o poder público local decidiu pela demolição do Teatro Municipal, selando o fim das entidades cívicas e a decadência cultural da cidade. Este declínio foi agravado em 1963 pelo desaparecimento do jornal “A Gazeta” – o único semanário impresso da época – e o quase fechamento da Escola Superior Agrícola de Lavras, que foi federalizada [14]. Outros sinais da degradação social visível naquela década foram o desmoronamento de parte da igreja do Rosário em 1965, custosamente reerguida somente em 1970 [5], e o término da linha de bondes elétricos, em 1967. 

As décadas de 1960 e 1970 representaram profundas mudanças na composição social lavrense. Por um lado, observou-se o crescimento da zona urbana devido ao êxodo rural; por outro, notou-se que o crescimento demográfico do município esteve abaixo da média brasileira, causado pelo fenômeno das migrações internas: estando Lavras economicamente estagnada, muitos de seus filhos se mudaram para outros centros em busca de melhores oportunidades. Outro sinal do enfraquecimento do município foi a falta de representatividade política, que seria quebrado quatorze anos depois com a eleição de Maurício Pádua Souza à Assembleia Legislativa de Minas Gerais em 1983. 

VI – Novo milênio 

Às vésperas do Século XXI, Lavras retomou o caminho do desenvolvimento, sendo atualmente uma das cidades mais prósperas da região [15]. Este progresso é consequência de uma série de fatores, a citar: a instalação do distrito industrial, que trouxe várias fábricas, como a Cofap, inaugurada em fevereiro de 1988, gerando assim muitos empregos [16]; a transformação da ESAL na Universidade Federal de Lavras, em dezembro de 1994 [17], cuja recente ampliação trouxe milhares de estudantes oriundos de outras regiões do Brasil [18][19]; e a construção da Usina Hidrelétrica do Funil, em 2002, que modificou a paisagem rural através do lago formado pela barragem. 

Não obstante, este desenvolvimento tem também gerado novos problemas em Lavras, como o aumento da violência[20] e o tráfico de drogas. Outro impasse visto na atualidade é uma grande disputa entre grupos políticos rivais [21], dividindo a cidade com intensidade que não se via desde a década de 1920.

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[1] NÉMETH-TORRES, Geovani. De Parnaíba às Lavras do Funil: Subsídios para a História das Origens de Lavras, 1712-1729. Lavras: Geovani Németh-Torres, 2012. ISBN 978-85-911368-2-7,

[2] SAINT-ADOLPHE, J. C. Milliet de. Diccionario Geographico, Historico e Descriptivo, do Imperio do Brazil. Paris: J. P. Aillaud, 1845, t. I, pp. 556-557. 

[3] SÃO PAULO, Arquivo do Estado de. Publicação Oficial de Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo. São Paulo: Aurora, 1895, v. 4, pp. 27-33. 

[4] COSTA, Firmino. História de Lavras. In: Revista do Arquivo Público Mineiro. Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais. Ano XVI, jan./jun. 1911, pp. 130-131. 

[5] NÉMETH-TORRES, Geovani. Os 250 Anos da Paróquia de Sant'Ana: Uma História da Igreja Católica em Lavras. Lavras: Geovani Németh-Torres, 2010. ISBN 978-85-911368-0-3

[6] Lei provincial n.º 1510, de 20 jul. 1868. 

[7] VILELA, Marcio Salviano. A Formação Histórica dos Campos de Sant'Ana das Lavras do Funil. Lavras: Indi, 2007. 

[8] MORRISON, Allen. The Tramways of Lavras, Minas Gerais state, Brazil. In: Urban Transport in Latin America. Atualizado em 8 abr. 2012. 

[9] DUARTE, Jorge. Lavras, Terra dos Ipês e das Escolas. In: Lavras: A Gazeta, 24 ago. 1941. 

[10] BRASIL. Recenseamento do Brazil: realizado em 1 de setembro de 1920, população. Rio de Janeiro: Typ. da Estatística, 1926. v.4, pt.1, p. 685. 

[11] IBGE. Enciclopédia dos Municípios. Rio de Janeiro: [s.n.], 1959. Capítulo: Lavras. p. 443-450. vol. 25.

[12] NÉMETH-TORRES, Geovani. A Atenas Mineira: Capítulos Histórico-Culturais de Lavras. Lavras; Geovani Németh-Torres, 2011. ISBN 978-85-911368-1-0.

[13] Aeroclube de Lavras. História.

[14] Lei n. 4.307, de 23 dez. 1963. Federaliza a Escola Superior de Agricultura de Lavras (ESAL) e dá outras providências.

[15] Ranking do IDH-M dos municípios do Brasil. Atlas do Desenvolvimento Humano Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), 2010.

[16] Ao ser inaugurada, a Magneti Marelli Cofap gerou, de imediato, 120 novos empregos no Município. RODRIGUES, Alberto da Silva. Gerenciamento eletrônico de documentos: estudo de caso na Magneti Marelli Cofap - Lavras/MG. Lavras: UFLA, 2002, p. 32.

[17] Lei n. 8.956, de 15 dez. 1994. Dispõe sobre a transformação da Escola Superior de Lavras em Universidade Federal de Lavras e dá outras providências.

[18] O número de matrículas em graduação de Ensino Superior em Lavras saltou de 3.066 para 8.366, entre 1991 e 2010. Cf.: Sinopses Educação Superior - Inep.

[19] No primeiro semestre de 2015, apenas 20% dos alunos ingressos eram originários de Lavras. Cf.: ASCOM UFLA. PAS e SiSU: UFLA já recebeu, neste semestre, estudantes de 19 estados e do Distrito Federal, 12 mar. 2015. 

[20] O número de homicídios causados por arma de fogo cresceu de 4, entre 2000-2002, para 18, entre 2010-2012. Cf.: MONTEIRO, Maria Gabriela et alli. Estudo da mortalidade por causas externas em Lavras, MG. In: XIII Congresso dos Pós-Graduandos da UFLA, 17 set. 2004; BRASIL. Mapa da Violência, 2015.

[21] Notícias JusBrasil. Corte confirma cassação do prefeito de Lavras, 2014.

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