sexta-feira, 6 de março de 2015

(6 de março) Sílvio do Amaral Moreira

Sílvio do Amaral Moreira
(15/07/1912 – 06/03/1994)
Bi Moreira foi “o mais lavrense de todos os lavrenses”, segundo Hugo de Oliveira; “a memória viva de Lavras”, de acordo com José Alves de Andrade; ou, conforme ele mesmo, “alguém que deve purgar sozinho o pecado de pensar em alguma coisa que aproveita mais aos outros do que a si próprio”.

Indubitavelmente, Bi Moreira foi um dos maiores incentivadores da cultura lavrense, um exemplo de tenacidade na busca de um ideal. Filho de José Moreira de Alvarenga e Altina Moreira do Amaral, nascera numa época de grande progresso em Lavras. O apelido de “Bi Moreira”, como nos conta José Alves de Andrade, surgiu nos tempos de infância, pois ele só conseguia pronunciar a primeira sílaba de “Bino”, abreviatura pela qual chamavam seu tio Urbino Amaral, o que causava certa hilaridade.


Estudou em várias escolas da cidade, diplomando-se em 1929 como guarda-livros pela Escola Técnica de Comércio do Instituto Gammon. Este colégio era reconhecidamente uma de suas grandes paixões.

Na década de 1930, o jovem Bi Moreira passa a trabalhar como secretário na Escola Agrícola (antigo nome da UFLA) e também ingressava na imprensa lavrense. Tempos depois, num ensaio autobiográfico, revela que “desde rapazola, com base em algumas coisas guardadas por meu pai no porão do velho casarão onde nasci e vivi até os 24 anos, comecei a juntar peças e documentos, com o intuito de preservá-los, a fim de mostrá-los à minha e às gerações futuras. E o resultado dessa ideia – simples ideia porque nunca tive tempo nem meios de planejá-la – é esse amontoado de bugigangas que formam um acervo, senão rico, pelo menos valioso em termos de informação. Esse trabalho – que eu nem sabia que era pesquisa – vem durando meio século. Durante bom tempo ele foi feito nas minhas horas de lazer, com prejuízo para o convívio da família. E, de 12 anos para cá, essa insânia mansa – que ultrapassou os limites do bom-senso – passou a se constituir em dedicação total e exclusiva, com a agravante de, há 10 anos, minha família residir em Belo Horizonte”.

O Museu de Lavras idealizado por Bi Moreira em 1949 começou a ganhar forma nos anos 1950, muito incentivado pela Sociedade dos Amigos de Lavras (SAL) a qual era um dos fundadores. O museu ficava no antigo Teatro Municipal na Rua Sant’Ana, até que este foi demolido, em 1962. Desde então, o acervo histórico migrou para várias localidades, como em salas das antigas Câmara e Prefeitura ou no prédio central da chácara Dr. Jorge. Ainda nos anos 1960, quando a Igreja do Rosário estava abandonada e em ruínas, Bi Moreira foi um dos grandes defensores da preservação do monumento, onde tinha esperanças de instalar seu museu numa das alas do templo. Este projeto acabou não se realizando. Porém, por volta de 1970, o museu ganharia novo fôlego ao ser transferido para o prédio Álvaro Botelho, na Escola Superior de Agricultura de Lavras, a partir de iniciativa do diretor Alysson Paulinelli. No início o museu ocupava somente algumas salas do prédio, mas com a mudança da sede administrativa da ESAL para o campus novo, o Museu de Lavras passou a ocupar todo o casarão onde se encontra até hoje.


Prédio Álvaro Botelho, no campus histórico da UFLA.
O local abriga o Museu Bi Moreira.

O acervo histórico continuava a crescer, num catálogo de milhares de peças das mais variadas. Celma Alvim registra que este feito muito se deve aos esforços solitários e pacientes do museólogo, que também recebia valorosos auxílios de amigos e entusiastas. Bi Moreira sempre rechaçou a ideia de vender alguma peça, mesmo quando o assédio dos colecionadores era grande e suas economias pessoais, escassas.

Sílvio do Amaral Moreira foi o lavrense que mais amou sua cidade e isso lhe rendeu algumas frustrações: jamais se conformou com a estagnação da área artística de Lavras, e também protestou contra a inatividade das lideranças locais com relação às faculdades de Medicina e de Direito.

Era verdadeira fábrica de ideias e projetos culturais. Prestes a completar 70 anos, no início da década de 1980, falava em dotar a cidade de um Centro de Cultura que abrigasse um Parque Ecológico, o Museu de História, o de Ciência e Tecnologia (e, dentro deste, o Museu Rural), o Museu de Mineralogia e o de História Natural.

Em 1983, como parte das comemorações dos 75 anos da ESAL, com muita justiça o museu passa a se chamar Museu Bi Moreira. Em 1984 foi a vez de Lavras prestar homenagens ao dedicado Filho: a antiga prefeitura transformou-se em Casa da Cultura Sílvio do Amaral Moreira.

No fim da vida mudou-se para Belo Horizonte, mas seus escritos ainda eram presentes nas páginas dos jornais lavrenses até seu falecimento, em 1994.

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Há quem zombe dos museus como lugar de gente que vive no passado; muito ao contrário! A luta davídica de Bi Moreira revela-o não como um saudosista, mas sim um homem muito a frente de seu tempo. Graças a ele, as gerações dos séculos vindouros poderão conhecer com excepcional riqueza de detalhes a vida de seus ancestrais. Pois é exatamente através do conhecimento do passado que o Homem se torna sábio, capaz de repetir um sucesso ou evitar um erro. Esta perspectiva temporal é um dado que o diferencia dos animais e lhe dá Humanidade.

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