quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

(5 de fevereiro) Doutor José Jorge da Silva

Tendo de dar, na história de Lavras, notícia da adesão da Câmara Municipal à revolução de 1842, apresenta-se o ensejo de comemorar o nome do dr. José Jorge, falecido em 5 de fevereiro de 1880, um dos chefes mais prestigiosos daquele movimento e um dos homens mais benemerentes desta cidade, à qual ele dedicou, por mais de quarenta anos, o melhor de seu cultíssimo espírito e de seu entranhado amor ao progresso. 

Melhor homenagem não podemos prestar ao grande mineiro do que transcrever o seguinte elogio de sua vida, feito em sessão do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro pelo cons. Olegário Herculano de Aquino e Castro: 

O Dr. José Jorge da Silva nasceu a 23 de abril de 1810, na freguesia de Santa Quitéria, da província de Minas, localidade a esse tempo notável pela ilustração e importância de muitos de seus habitantes e prosperidade de seu ativo comércio.

Foram seus pais Miguel José da Silva e D.ª Ana Felipa, honrados fazendeiros que esmeravam-se em dar a seus filhos acurada educação, bem compreendendo que é esse o mais sacrossanto dever que a moral impõe aos pais, no interesse de sua própria felicidade, da vantagem de seus filhos e bem geral da sociedade. A educação é, como bem o diz o barão d’Holbach, a melhor herança que se pode deixar aos nossos sucessores: repara muitas vezes os estragos da adversidade: equivale a um nascimento ilustre e chega mesmo a fazer esquecer as culpas dos progenitores. 

De seu próprio pai, amigo fervoroso das letras, recebeu José Jorge a instrução elementar, até ser admitido, com mais sete irmãos, entre os quais se contavam o desembargador Quintiliano José da Silva e o Dr. Serra Negra, no antigo colégio Caraça, ninho fecundo e celebrado em que ensaiaram as asas tantas águias que altivas remontaram às sumidades do nosso mundo político e literário. 

Ali sob a ilustrada e vigilante direção de professores da ordem do finado bispo de Mariana, conde da Conceição, padre Leandro Garcez e outros venerandos e sábios sacerdotes concluiu o nosso digno consócio com distinção os estudos preparatórios, seguindo em 1827 com seu irmão Quintiliano para o reino de Portugal, a procurar na velha universidade de Coimbra instrução superior que ainda não era dispensada pelas academias jurídicas criadas no Império no correr desse mesmo ano, mas só instaladas no ano seguinte. 

Iniciava o curso de Direito, depois de brilhantes exames preliminares quando foi proclamado pelas cortes de Lamego o governo revolucionário de d. Miguel, desenvolvendo-se contra os partidários do governo legal encarniçada perseguição, de que foram vítimas, entre muitos outros, seis estudantes justiçados em Lisboa aos próprios olhos do tirano, que de Val-verde assistia ao sangrento espetáculo. 

Não consentiu a generosa índole do jovem brasileiro que ficasse um liberal, qual então era, quedo e indiferente testemunha de tão revoltante prepotência: fez-se voluntário da liberdade e com outros patriotas foi defendê-la cheio de entusiasmo no campo em que se debatia com valor a mais generosa das causa. 

Regressando ao Brasil foi a São Paulo continuar os estudos interrompidos: e aí, como anteriormente, deu prova do seu notável talento e mui distinto caráter, francamente adito às idéias liberais que cedo esposara. 

Conta um ilustrado condiscípulo de José Jorge, em uma notícia biográfica, publicada há tempos na imprensa desta corte, que um dia fora o adiantado estudante chamado à lição; magnífico era o assunto: – A pena de morte – e ele o desenvolvera com tanta sagacidade, abundância de observações e bem deduzidos argumentos, que isto bastou para que o professor e discípulos avaliassem o grau de sua bela inteligência. 

Na elevação de seus grandiosos sentimentos agitava o esperançoso jovem ainda nos bancos escolares, a solução de um problema social que não pôde ser até agora resolvido pelos poderes públicos, mas que brevemente será, nós o esperamos, e por modo inteiramente acorde com a razão, com a humanidade e com a justiça, que reclama em bem da sociedade a afetiva repressão do crime e a regeneração do criminoso, mas nunca o repugnante espetáculo da tremenda execução. 

Em 1833 concluiu José Jorge a sua formatura, despedindo-se com saudade dessa plêiade de brilhantes talentos de que fazia parte e em cujo número se contavam futuros jornalistas, mestres, magistrados e ministros de Estado da altura de Justiniano José da Rocha Miranda, Silveira da Mota, Ribeiro Coutinho, Cerqueira Leite, Campos Mello e tantos outros que ainda hoje perpetuam as glórias da famosa Atenas Brasileira, tão justamente celebrada como fonte inexaurível de luz e de instrução, em cujas águas lustrais se vão redimindo as gerações novas que simbolizam a grandeza da pátria no risonho porvir que nos aguarda. 

Retirado à província natal e dedicando-se à lavoura sem abandonar as letras de que foi sempre esmerado cultor, foi distraído pelas exigências da política e elevado à assembléia provincial, onde teve por companheiros inseparáveis muitos desses que o haviam seguido nas lucubrações escolares, além de Teófilo Ottoni, Dias de Carvalho, Marinho e Domingos Theodoro, todos recomendáveis por seus feitos à província que tão dignamente representavam. 

Em 1842, malogrando-se o movimento revoltoso que a política de um partido havia provocado, achou-se José Jorge ao lado de seus antigos companheiros e com eles partilhou franca e largamente os dolorosos sacrifícios que tiveram a suportar pelos erros por muitos cometidos. 

Eleito deputado geral por sua província, nas legislaturas 6.ª, 7.ª e 12.ª, poucas vezes subiu à tribuna, posto que lhe sobrasse aptidão e talento para dignamente ocupá-la. 

Foi juiz de Direito da comarca de Paracatu, mas resignou o cargo para entregar-se exclusivamente à lavoura em Lavras, lugar de sua residência habitual. 

A abnegação e o desinteresse que o distinguiam levaram-no a recusar o honroso cargo de ministro da Marinha por motivos particulares e dignos de tão nobre caráter. 

Era sócio correspondente do Instituto desde 1845 e condecorado com o grau de oficial da Ordem da Rosa, em atenção aos serviços que prestara por seus escritos quando se pretendeu desmembrar uma parte do sul de Minas para se formar uma nova província. 

Foi a única prova de consideração que recebeu do governo pelos seus importantes trabalhos e essa mesma lembrada por Vasconcelos, adversário político do extremo liberal. 

Não será fora de propósito juntar aqui o que ainda com relação aos serviços prestados pelo Dr. José Jorge disse o desembargador Cerqueira Leite, no artigo a que já uma vez aludimos. 

Sendo convidado com o seu amigo Domingos Theodoro para servir na diretoria da estrada de D. Pedro II, sob a presidência do conselheiro Ottoni, deu logo abono da sua notória aptidão. 

O desempenho deste novo cargo serviu para despertar e cada vez mais radicar no seu ânimo a necessidade de vias de comunicações da província e este assunto tornou-se para sempre o favorito das suas investigações e práticas. 

Assim, pois, quando se discutiu o traçado daquela estrada além de Juiz de Fora, ele não se fez esperar para vir protestar contra o que lhe parecia um grande desacerto; escreveu primorosos artigos que formam avolumado folheto repleto de judiciosas apreciações. 

Afrontou galhardamente alguns profissionais com a sua valente argumentação; comparou distâncias, estatísticas, economias e a necessidade de outras zonas mais férteis, que reclamavam o benefício dessa estrada: bons julgadores lhe deram ganho de causa neste grande debate e hoje a experiência e a calma isenta de paixões poderão dizer a última palavra. 

É supérfluo por isso mesmo transcrever aqui os acentos de patriótica indignação com que ele em uma carta se desabafou saudando por despedida a resolução que condenara os seus nobres esforços. 

Com os olhos fitos nestes melhoramentos da província e empenhando-se pelo engrandecimento de seu município, sempre o reputou ponto muito importante à direção de futuras estradas, não só por se aproveitarem dezenas de léguas com a navegação do Rio Grande como pela facilidade do bom prolongamento por espaçosos e férteis terrenos. 

Neste propósito e auxiliado por outros, acompanhou o engenheiro encarregado de estudar essa navegação e não foi um ocioso espectador; viu tudo por si, coligiu e escreveu curiosas informações, que em tempo não remoto hão de ser de grande proveito à província. 

Trabalhos semelhantes, como o da nova divisão da província para lhe facilitar e melhorar a administração, andam aí por mãos alheias esperando oportunidade à maneira das sombras figuradas à beira da lagoa Styge. O finado marquês de Olinda, necessitando de informações a respeito do estado da criação do gado na província, do seu transporte para o Rio de Janeiro e dos estorvos que ocorriam no abastecimento da cidade, pediu ao Dr. José Jorge que se encarregasse dessa tarefa e ele em curto prazo deu contas de si apresentando uma circunstanciada memória com detalhes e acertadas providências, que correram impressas, merecendo gabos de bons entendedores. 

Tinha o dom da concisão com clareza e sabia vazar em linguagem castiça e picante as agudezas do espírito. 

Tal foi o distinto brasileiro que no dia 5 de fevereiro do corrente ano, baixou ao túmulo na freguesia de Bom Sucesso, sucumbindo à grave enfermidade de que foi acometido e que não pôde ser debelada nem pela ciência de que dispunha seu digno filho, o hábil médico Dr. Augusto José da Silva e nem pelo afetuoso amor e desvelado zelo de uma extremosa família, que lamenta hoje a perda irreparável do melhor dos pais, como nós lamentamos a de um dos nossos colegas mais prezados. 

 --//-- 

 Autor: Firmino Costa, Vida Escolar, n. 27.

4 comentários:

  1. Prezado Geovani,
    Sou amigo de infância do Márcio Salviano e interessado na história de Ribeirão Vermelho. Já conhecia o texto, pesquisando sobre a navegação, mas até agora nada encontrei sobre José Jorge da Silva PENNA, o concessionário da navegação do Rio Grande, que acredito ter sido filho do primeiro. Você tem alguma pista ? Marcelo Teodoro (mto1962@terra.com.br)

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  2. Respostas
    1. Olá amigo, desculpe a demora. Eles não podem ser a mesma pessoa, porque a a navegação foi concedia a José Jorge da Silva PENNA em 18/12/1880 (lei provincial 2754), enquanto que José Jorge da Silva havia falecido em 05/02/1880, conforme o artigo que você reproduziu. Nos artigos dos jornais da época, sobre a inauguração da navegação, fala-se do "saudoso" Dr. Jorge. É uma incógnita até agora, a menos que saibamos quem era esse que foi o concessionário da navegação. Me mande um e-mail que te mando o que tenho sobre o assunto navegação. Marcelo Teodoro (mto1962@terra.com.br)

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    2. Caro Marcelo, você está certo, obrigado pela correção! O Doutor José Jorge da Silva nasceu em 1810, e José Jorge da Silva Penna é seu filho, nascido em 1849. Meu e-mail é nemeth.torres@yahoo.com.br

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