quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

(17 de dezembro) Doutor Augusto Silva

O dr. Augusto José da Silva foi a maior intelectualidade que Lavras tem produzido. Se seus conhecimentos científicos e literários não fossem velados por grande modéstia, se a clínica não lhe houvesse tomado o melhor do tempo, ele pudera ter sido um dos escritores mais fecundos e aprimorados da literatura nacional. Suas produções, esparsas pela imprensa, são bastantes para corroborar o nosso asserto: a profundidade de seus conceitos vazados em linguagem rica e aprimorada revela extraordinária cultura intelectual. Meneava ele a língua vernácula com destreza e facilidade, e possuía um estilo conciso, de esquisito brilho, expressivo e forte.

Seria valioso serviço prestado às letras a publicação de algumas obras do dr. Augusto Silva, nas quais há muito que aprender. Compenetrar-se-á disso quem ler A Escrava, A Casa Branca, A Devota, O Soldado e esses verdadeiros mimos pela forma e pela essência, aos quais deu ele o nome de Farfalhas.

A tão exímias qualidades intelectuais aliava o ilustre lavrense qualidades morais de subido grau que lhe granjearam a gratidão deste município, onde ele exerceu influência notavelmente benéfica.

Como médico, soube o dr. Augusto preencher cabalmente a sua profissão. Durante os largos anos de sua clínica ele não esmoreceu no estudo da ciência, cujo progresso sempre acompanhou. A par da competência andava sua caridade no exercício da medicina. É por isso que, na entrada de sua carreira, encontramo-lo bem moço ainda, tratando dos variolosos no Carmo da Cachoeira, quando dali fugiram quase todos, deixando os doentes ao desamparo. Naquele lugar, quantas provas deu ele de sua abnegação; ali, algumas vezes, no silêncio da noite, debaixo de chuva, ele foi ao cemitério enterrar as vítimas da varíola, ajudando a abrir as sepulturas!

E como não proceder assim quem considerava a caridade excelsa entre as virtudes, o radiar em nossa alma do Amor Divino! Ele escreveu – “Qual flor que expande seus aromas, descuidosa dos que os aspiram, assim a caridade espalha benefícios e consolações sem lhe dar de saber quem os recebe; também semelha o córrego que refresca e alenta as ervas da ribeira, quer sejam boas ou más, e vai serpeando sem voltar para colher o prêmio de seus benefícios. Não há muitos que compreendam a caridade, ai! não! Dar e esquecer é altíssima virtude, que sobre excede quantas possam enobrecer o homem”.

Uma das feições proeminentes da personalidade do dr. Augusto Silva era o sentimento religioso. A religião sempre lhe preocupou o espírito, tendo-se ele dedicado ao estudo de várias crenças, até mesmo do budismo. Tornara-se fervoroso adepto do espiritismo, cuja doutrina sabia expor e defender com segurança e penetração admiráveis. Chegava a ser quase comunicativa a crença firme e sem dúvida consoladora, que ele tinha na comunicação dos espíritos. Esse segredo do além-túmulo, que a morte leva consigo e que absorve tantos entendimentos, havia-lo desvendado a fé e ainda mais suas próprias experiências.

Conseqüente com seus princípios, tinha o dr. Augusto entranhado amor à instrução, sem a qual não pode despir cada indivíduo a bruteza ingênita a fim de ascender para Deus, como lhe cumpre. Assim persuadido, ele não poupou esforços para educar os filhos, a todos os quais deu esmerada instrução. Em seus escritos e em seus atos depara-se-nos a cada passo o grandíssimo interesse que lhe inspirava a instrução.

Quando teve de inaugurar-se aqui o regime municipal da república, foi eleito agente executivo o dr. Augusto Silva, que se mostrará sempre entusiasta da nova forma de governo. Em uma de suas mensagens à Assembléia Municipal ele nos lembrava mais tarde que – quando era estudante, pedia a Deus que lhe desse vida para ver no Brasil duas coisas: a extinção da escravidão e o advento da república.

Conhece o povo lavrense qual a administração dada ao município pelo seu primeiro agente executivo. Firmada na escrupulosa aplicação da renda do município, dirigida proficientemente por quem conhecia as necessidades locais, essa administração, no período de ensaio da autonomia municipal, encerra ensinamentos proveitosos.

O dr. Augusto Silva revelou tal civismo no governo do município que não poucas vezes deixou de atender a chamados de sua profissão para fora da cidade, tão somente porque, entre outras, julgava não poder vir a tempo de assistir à concorrência de um serviço público! Ia longe seu patriotismo: porque convinha fazer um serviço, cujo dispêndio não comportavam os recursos da Câmara, diligenciava ele obter por subscrição particular o necessário para aquele fim, o que mais de uma vez conseguiu. Não foi menor o seu desinteresse em aplicar o subsidio de agente executivo na aquisição de uma mobília escolar americana, com que dotou a casa de Instrução desta cidade. E ele, que praticava tais atos, não era homem de fortuna, não buscava popularidade, não ambicionava posições políticas, não queria mandar...

Dia cruel para a nossa terra esse 19 de dezembro de 1905, em que a morte arrebatou o dr. Augusto Silva! De quanto nos valera ele nestes tempos de agora, em que nos consagramos à instrução popular, ele, que duas horas antes de morrer, enviava à Folha de Lavras o mimoso artigo As crianças, nas quais tão carinhosamente pensava nos últimos instantes da sua despedida deste mundo! Ele recordava nesse artigo que “Jesus era todo doçura e amor às crianças, e não se lêem nos Evangelhos passos em que lhes ralhassem ou as atirassem de si. Não nos esqueça o que devemos aos nossos filhos, (eis as últimas palavras do artigo) eles são nossos credores, a quem devemos cuidados, carinhos, bons exemplos e instrução, ao passo que aos outros não passamos de dever o vil dinheiro”.

Sim, grande morto, esse o ensino sublime que deste em tua vida, – cuidados, carinhos, bons conselhos, bons exemplos e instrução, porém não te limitaste aos filhos, foste além, repartindo-te com os amigos, com os pobres, com os doentes, com as crianças, com o povo... Por isso tua memória será sempre querida e venerada pelo povo lavrense!...

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Autor: Firmino Costa, Vida Escolar, n. 17.

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