quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Vamos Reconstruir o Antigo Teatro de Lavras? Breve Ensaio sobre as Elites Lavrenses – Parte I

            Há algum tempo foi publicada no Facebook uma foto do antigo teatro, muito belo e saudoso para os lavrenses das décadas de 1930, 1940 e 1950. Quem o conheceu dizia que seu interior parecia com o La Scala, de Milão, Itália. De fato, algumas fotos do teatro em seus tempos áureos nos maravilha pelo seu esplendor e também nos choca por ele não mais existir.

            Sobre a publicação na dita rede social, espontaneamente sugeri que o antigo teatro fosse reconstruído se aproveitando a planta original em local onde hoje se encontra o buracão da Câmara Municipal, que por coincidência também foi demolido (que mania...). A proposta ganhou eco através de mensagens positivas de algumas senhoras, que reforçaram o desejo de tornar esta idéia uma realidade.

            E como fazê-lo? Infelizmente, em minha humilde insignificância, não posso dar uma resposta às senhoras. Por outro lado, se voltássemos há exatos 150 anos no tempo, quando Lavras ganhou seu primeiro teatro, a resposta seria simples: como fazer? Fazendo, oras!

            Para quem gosta de conhecer nossa história, é instrutivo consultar a ótima obra de referência do ribeirense Márcio Salviano Vilela, “A Formação Histórica dos Campos de Sant’Ana das Lavras do Funil  (2007). Quando no Século XIX e na primeira metade do Século XX alguns lavrenses decidiam construir uma benfeitora para a cidade, eles simplesmente se organizavam e a construíam. Para citar alguns exemplos, foi assim com o Teatro Sant’Ana (1862), a Santa Casa de Misericórdia (1865), a Casa de Instrução (atual Escola Estadual Firmino Costa, 1874), e a Matriz de Sant’Ana (1904-1917). Esta última inclusive é a mais cara e grandiosa das obras verdadeiramente públicas de Lavras, isto é, uma construção “dos lavrenses, pelos lavrenses e para os lavrenses”.

            Como isso era possível? Se observarmos quem eram os beneméritos destas obras nas listas transcritas por Vilela, os nomes quase sempre se repetiam, muitos deles sendo hoje lamentavelmente conhecidos apenas como meras referências geográficas em nomes de ruas: Ten. Firmino Sales, Dr. José Jorge da Silva, Cap. José da Costa Ribeiro, Com. José Esteves de Andrade Botelho, Pe. José Bento Ferreira de Mesquita, etc. Há mais de um século, eles eram a elite de Lavras.

Em verdade, quem lê livros sobre a História do Brasil-Império e sobre a República Velha costuma se deparar com o adjetivo “oligárquicas” para qualificar as elites desta época. “Oligarquia”, no caso, significa um governo em que poucas pessoas detêm o poder, usando-o em benefício próprio. Mas, com tantos exemplos em contrário, eu me pergunto até onde isto é verdade ou é somente puro ranço ideológico. (Aos que fizerem beicinho, sugiro que tracem um paralelo entre o Senado do Império e o Congresso da Nova República e me expliquem como a antiga Casa de estadistas se tornou um antro de mensaleiros).

            Ainda comparando as épocas, é paradoxal como temos no Século XXI muito mais recursos e facilidades tecnológicas que no Século XIX, e, mesmo assim não conseguimos nem chegar perto das realizações de nossos ancestrais!

            “A culpa é da Zelite”, diz o credo comunista. Sim, é verdade, a culpa é das elites, mas na verdade elas são culpadas não por serem elites, mas sim por não o serem. No passado, este grupo chamado elite era formado por elementos que se despontavam nas esferas econômica, política, militar e intelectual e que atuavam em conjunto conforme as necessidades da sociedade. Além do mais, muitas daquelas ações não se resumiam a troca de favores e benefícios mútuos, pois, guiados pelo espírito da caridade, elas também se espalhavam em espiral e atingiam também os que não tinham as mesmas condições privilegiadas. A Irmandade de Nossa Senhora das Dores e a Associação Propagadora da Instrução são exemplos notórios de instituições criadas pela elite lavrense com o propósito de fomentar a saúde e a educação dos pobres nas últimas décadas do Século XIX.

            Embora certamente não possamos idealizar o passado, também é falacioso continuar a demonizá-lo como excludente e patrimonialista. Não deixa de ser interessante notar que a desigualdade ainda persiste – e continuará persistindo –, mas aquelas louváveis atitudes da elite de ontem não mais encontram equivalentes hoje. O Estado brasileiro agigantou-se, seu raio de ação se ampliou e o custo desta maior atuação foi anular aqueles saudáveis traços de harmonia social que evocavam o espírito cívico, a paz e o progresso humano. Perdemos isso, e em troca nosso grande prêmio foi desfrutarmos dos piores sistemas de educação e saúde do mundo, a um custo em impostos que rebaixou todos os trabalhadores a um nível de semi-servidão.

Ainda sobre o teatro lavrense, “a Zelite” e a perdida harmonia social que falei, vejamos a seguinte sugestão: suponhamos que para reconstruí-lo em todo seu refino e requinte necessitássemos de um investimento de 700 mil reais. Estariam os setenta lavrenses mais ricos dispostos a desembolsarem 10 mil reais cada para financiar o projeto? “Ahaha, faz-me rir!”, seria a reação natural à proposta tão pueril. Por acaso, o Teatro Sant’Ana em 1862 custou Rs. 7:000$000 (sete contos de réis) [1], então equivalentes a sete quilos de ouro. Considerando o valor atual do grama de ouro a cem reais e imaginando que este valor fosse constante, sete quilos seriam os mesmos setecentos mil reais! E, mesmo que a obra atual fosse seis vezes mais cara, o esforço social conjunto ainda seria proporcional, pois a população lavrense sextuplicou nestes últimos 150 anos. Fora todas estas contas, o que importa é o fato de que a elite ancestral era suficientemente altruísta para conseguir coletar a soma necessária e fazer o teatro, conforme realmente aconteceu, enquanto seus descendentes são incapazes de fazê-lo, mesmo sendo muito mais ricos.

            Nós poderíamos continuar a jogar pedras e mais pedras nos ricos, pois este esporte já é tão difundido no Brasil que até poderia se tornar modalidade olímpica. Porém é verdade que a elite econômica lavrense não é composta por monstros egoístas, assim como é verdadeiro que apenas tolos ingênuos e patifes ardilosos acreditam nos devaneios do igualitarismo socialista. Não conheço nenhum levantamento a respeito, mas existem claros indícios que todos os anos os lavrenses mais ricos fazem doações que superariam em muito a quantia necessária para construir um teatro, um hospital ou uma escola. A diferença em relação ao passado é que atualmente não há mais os canais que concentrariam estes donativos de modo a realizar fins maiores. Graças ao nosso sistema tributário insano, num primeiro instante os (A) lavrenses têm de pagar milhões de reais em impostos para (B) Brasília e Belo Horizonte, para depois ter de recorrer a (C) políticos ou especialistas tributários – talvez de outras cidades ou Estados – para, quem sabe, receber uma fração de seu dinheiro expropriado através de um serviço meia-boca ou de uma obra superfaturada. [CONTINUA].



[1] É o que se estipula, baseando-se em VILELA, 2007: 336

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