quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O “Princípio de Mateus” – Breve Ensaio sobre as Elites Lavrenses – Parte II


            Observa-se que a natureza da elite lavrense mudou significativamente nos últimos cinqüenta anos. Anteriormente, os cidadãos mais relevantes na política, na economia e na intelectualidade estavam juntos para discutir os principais temas e projetos de relevância à população local, algo que desde então não ocorre com a mesma naturalidade, ou então apenas em casos menores, pontuais.

            Sim, a população aumentou, bem como a complexidade da sociedade, mas talvez o principal vilão do desvirtuamento das elites seja a transformação do Estado ocorrida na Era Vargas. Sua expansão e concentração de poder nutriu o germe do populismo e o culto ao político paternalista. Na prática, esta situação corrompeu o que havia de cívico nas elites políticas municipais. Outro problema foi que elas tiveram seus poderes confiscados, primeiro pelas elites estaduais, depois pelas elites nacionais: lembremos, como foi dito anteriormente, que os municípios ficam apenas com migalhas de impostos repassados pelos Estados e pela União, onde estão os grandes cofres-fortes. Assim, por mais boa vontade que os prefeitos e vereadores tenham – se e quando têm –, suas principais funções políticas se degeneram, ficando rebaixados à posição de fazer pequenos favores aos eleitores de modo a garantir sua reeleição.

            Outro efeito colateral do populismo foi o desfazimento do vínculo entre a elite política e a elite intelectual. Para começar, antes os líderes políticos estavam entre os cidadãos mais cultos e instruídos da sociedade, contudo nas últimas décadas o nível foi caindo até chegar ao show de horrores visível a cada dois anos nos horários eleitorais, quando uma ou outra destas anomalias se torna “Voça Esselença”.

Também nas últimas décadas, o papel social dos professores se alterou; dos escolares, sua capacidade de influenciar as elites minguou ao zero, tal como o respeito merecido e a importância devida; de seus “parentes ricos”, os professores de universidades, sua voz ainda costuma ser ouvida quando convidada. Mas, por uma infelicidade, são nos momentos em que sua opinião não é solicitada que ela mais precisaria ser ouvida, e nem todos ousam dar o grito.

Em muitos aspectos, a universidade brasileira parece um mundo a parte, desconexo do restante da sociedade. Beneficiada pelos impostos de milhões de brasileiros que nunca entrarão em seus recintos, a universidade pública é filha da lógica invertida das esferas de poder no Brasil. Se é verdade que o orçamento da UFLA é o dobro do da prefeitura de Lavras, chega a ser espantoso que a universidade, uma “cidadezinha” de  dez mil “habitantes” receba vinte vezes mais recursos per capita que a cidade em que ela está incrustada.

Não que a UFLA não tenha sua importância; pelo contrário, ela é tão importante que deveria fazer muito mais. Em meu ponto de vista, só para ficar num exemplo, eu creio que a universidade tem um projeto urbanístico magnífico, e se fosse um bairro de Lavras sem dúvida seria o mais agradável para viver. Sendo assim, a UFLA (elite intelectual) poderia, ou melhor, deveria influenciar as elites econômicas e políticas da cidade com seu conhecimento teórico e técnico para melhorar a estúpida urbanização de Lavras, em específico a dos novos bairros que surgem e que repetem os mesmos erros dos velhos.

“Ah, mas isto não é função da universidade”, você diria. Pode não ser, mas a elite, por ser elite, deveria tomar a frente destas coisas e começar a falar a mesma língua. Afinal, “a quem mais for dado, mais será cobrado”.

2 comentários:

  1. Excelente artigo. Parabéns. No entanto, sou obrigado a discordar parcialmente do penúltimo parágrafo.

    Não sei se a UFLA é realmente a "elite intelectual" da cidade. O fato de ter dúzias de PhDs não garante a "intelectualidade". O fato de alguém ser um cientista e professor excepcional não necessariamente faz dele um intelectual.

    Quanto à influência dos intelectuais da UFLA sobre as elites locais, essa é uma aposta um tanto temerária. Professores intelectuais, mesmo aqueles que realmente são intelectuais, tendem a ser prisioneiros de ideologias utópicas e desvinculados com as raízes da cidade.

    Quantos professores da UFLA escrevem regularmente nos jornais locais? Quantos professores da UFLA participam da vida cultural da cidade?

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  2. Caro amigo, obrigado pelo comentário. Creio que a UFLA, ou melhor, alguns de seus professores poderiam contribuir mais à sociedade lavrense com seus conhecimentos teóricos e experiência prática. Quando digo isto, penso principalmente nas áreas administrativa e de planejamento estratégico; mas sim, concordo que em outras seria uma aposta temerária. Das universidades surgem muitas coisas, algumas excelentes, outras absurdas. Sobre a cultura, por coincidência ontem estive presente em uma reunião onde também estiveram a nova secretária de cultura do município e o coordenador da cultura da Proec e minhas impressões foram bastante positivas. Ainda assim, não são muitos os professores da UFLA que têm participação informal/não-institucional na vida cultural de Lavras. O morro entre o campus e a cidade ainda é muito longo.

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