quarta-feira, 1 de junho de 2011

Conservacionismo e Conservadorismo

Um dos principais temas mundiais nas últimas décadas trata do conservacionismo, ou seja, da preservação do meio ambiente, dos recursos naturais, dos animais e das plantas. De fato, a proposta ambientalista chama cada vez mais a atenção da sociedade: está na moda ser “verde”. É evidente que a temática conservacionista é importante. Os ecologistas constantemente nos alertam da necessidade de se utilizar corretamente os elementos da natureza, que o desenvolvimento para ser benéfico deve ser sustentável, e que o homem deve aprender a interagir com o meio ambiente para evitar calamidades futuras. Todos estes argumentos são válidos, e todos caminham para o mesmo fim: promover a prosperidade da humanidade.

Similar ao conservacionismo é o conservadorismo. A atitude conservadora, como salienta Russell Kirk, é mantida por um conjunto de sentimentos ao invés de um sistema de dogmas ideológicos. Assim, pode-se dizer que em essência o conservacionista é também um conservador, e vice-versa.

Vejamos o caso de Lavras. Todos nós já cruzamos o córrego fétido nas proximidades da entrada da UFLA que há décadas causa vergonha e desconforto às pessoas que passam pelo local. Estas águas, outrora límpidas e cuja paisagem bucólica atraiu os primeiros habitantes do arraial, poluíram-se devido a ação impensada e impune de nossos conterrâneos. O mesmo vale para o crescimento da cidade, cuja inexistência de um plano urbanístico racional (e os jornais dos anos 1920 já alertavam isso!) provocou caos e transtornos na locomoção urbana. Uma amostra dos malefícios da excessiva concentração populacional é que as ruas e calçadas já estão cheias, sendo difícil caminhar no centro sem esbarrar em alguém. Isso sem falar na imundice das ruas. No quesito estético, a situação também é triste: ano após ano vemos a demolição de prédios históricos belíssimos, substituídos por obras utilitárias de estilos arquitetônicos desarmônicos e insossos, que ilustram como mudanças inconseqüentes são danosas.

Porém não só a natureza e a urbe padecem destes sintomas. Com pesar, nota-se que a própria sociedade lavrense sofre com mudanças negativas ao longo do tempo. Um após outro, nossos costumes e tradições foram se perdendo, ao ponto de ser uma piada local chamar Lavras da “terra do já teve”: onde estão nosso futebol, nosso Carnaval? O que foram dos concursos de beleza, do teatro, da música, dos desfiles cívicos, da Ponte do Funil, do trem de passageiros e do aeroporto? [Aventuro a dizer que esta queda ocorreu em muito por causa da desarticulação de entidades como a S.A.L. (Sociedade dos Amigos de Lavras) e S.O.L.C.A. (Sociedade Lavrense de Cultura Artística), ambas desaparecidas na década de 1960...].

“Ora” – diriam os progressistas – “as coisas mudam!”... Mas que coisa, que fatalidade! Nada podemos fazer, certo? Logo, resta aos conservacionistas/conservadores se acostumarem com a situação, pois é inútil reclamar do rio sujo, da natureza poluída ou da cidade caótica, feia e culturalmente monótona.

O argumento acima é falacioso, evidentemente. Nem toda mudança precisa ser revolucionária, e, em verdade, mudanças como estas, que rompem a organicidade da natureza e da sociedade, são bastante danosas. Em outras palavras, o revolucionário é aquele que em nome do progresso derruba as árvores; os conservadores as preservam, fazendo algumas podas, se preciso for, para o bem da planta.

Enfim, conservacionistas e conservadores possuem o mesmo sentimento, tendo apenas uma diferença marcante: os primeiros são muito mais articulados que os últimos. Após décadas de lutas, os conservacionistas já conquistam diversas vitórias – e a natureza agradece por isso. Infelizmente o mesmo não pode ser dito dos conservadores, esta verdadeira “maioria silenciosa” da população. Muitos destes sabem quais são os nossos problemas e formulam consigo as respectivas soluções, mas quantos realmente fazem alguma coisa? Se nada for feito... nada será feito! É o que lembra a máxima atribuída a Edmund Burke: “Para que o mal triunfe basta que os bons nada façam”. Em suma, só há uma coisa pior que a apatia e inércia que testemunham a decadência de nossa sociedade – a certeza que, por nossa culpa, entregaremos um mundo pior do que aquele que recebemos. 

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